RELAÇÃO ENTRE A TRADIÇÃO E A BÍBLIA
PERGUNTA
Nome: Marcelle
Enviada em: 26/03/2002
Local: Petrópolis - RJ,
Religião: Católica
Idade: 19 anos
Escolaridade: Superior em andamento
1) Por que para os cristãos, a Tradição merece credibilidade?
2) Qual a relação entre a Tradição e a Bíblia?
3) Qual a diferença entre a Tradição e os costumes locais?
RESPOSTA
Prezada Marcelle, salve Maria,
Suas dúvidas são bem pertinentes, pois evidenciam a incoerência dos protestantes, que negam a tradição, e são obrigados a atribuir à Bíblia um valor exagerado.
E esse exagero acaba levando necessariamente à negação da mesma Bíblia, pois uma das formas de se destruir algo é exagerar sua importância, atribuindo-lhe uma qualidade que não tem.
O primeiro ponto é que a Tradição formou a Bíblia, sendo portanto sua fonte.
A Bíblia é o livro por excelência, escrita por santos homens, sob inspiração divina.
Porém a Bíblia não foi escrita por Cristo, nem em muitos casos pelos protagonistas das histórias que estão ali retratadas, como no caso do Evangelho de São Marcos, e também do livro do Gênesis, escrito por Moisés.
Foram os fatos e doutrinas passadas de um para outro, sob a inspiração do Espírito Santo, que acabaram por forjar os livros da Escritura, tempos depois.
Ou seja, antes de haver a Bíblia, houve a Tradição que a formou.
De fato, a Bíblia é a Tradição escrita, e por isso, ambas devem ter valor equivalente.
Porém, como a palavra escrita está sujeita a interpretações diversas, se faz obrigatório um intérprete, alguém que tenha recebido as chaves para interpretar o sentido correto das verdades reveladas por Deus.
A esse conjunto de verdades damos o nome depósito da fé, e ao intérprete legítimo, Cristo deu o nome de Pedro, fundamento firme da Igreja que não perece, que não muda, e único que possui as chaves do reino dos céus.
Caberia então uma pergunta: se o que está na Bíblia já estava na Tradição, para que escrever?
O motivo é de conveniência, pois o documento escrito é mais formal, e mais facilmente aceito como prova do que o testemunho, vide, por exemplo, o direito positivo.
E portanto Deus guiou os homens para que colocassem a Tradição de forma escrita.
Como pode-se facilmente deduzir então, a Tradição e a Bíblia devem se harmonizar perfeitamente, pois tem ambas a Deus como autor.
O segundo ponto é que a Tradição confirma a Bíblia, sendo então seu apoio.
E esse argumento é mais direto que o anterior: como podemos saber, com certeza, quais os livros que compõem o canon da Bíblia, ou seja, qual a relação dos livros inspirados?
Na Bíblia não há tal índice.
Muitos protestantes partiram para a crítica dos livros chamados deuterocanônicos, dizendo que contém doutrinas contrárias ao restante da Bíblia, mas sua argumentação não resiste à mínima crítica contextual.
Muitos negavam os livros após Esdras, pois segundo eles a revelação divina teria terminado após o cativeiro da Babilônia.
Porém, este é o argumento dos judeus, que além de rejeitarem estes livros, rejeitam também todo o Novo Testamento!
Afinal, seguindo este raciocínio, se a revelação acabou após Esdras, é preciso eliminar também os Evangelhos e Epístolas, que vieram depois dele!
Alguns protestantes, vendo o absurdo de tal afirmação, tentaram argumentar que a revelação foi suspensa por uma época (após Esdras), voltando depois com Cristo, e acabando definitivamente com a morte do último Apóstolo.
Porém, se a revelação pode ser suspensa em alguma época, quem nos garante que não houve outras suspensões, quando por exemplo os judeus ficaram cativos no Egito?
Tal concepção não resiste nem ao bom senso...
A revelação começou com Adão e terminou com o último Apóstolo.
Se negamos isso, nenhum livro da Bíblia pode ser considerado inspirado com toda certeza.
Se não podemos definir o canon pela própria Bíblia, nem pela crítica dos livros, só nos resta um elemento externo, que, sendo igualmente inspirado pelo Espírito Santo, defina que um livro pertence ao canon e outro não.
Evidentemente os livros da Bíblia não podem conter erros e contradições, e novamente é o legítimo intérprete - o Papa - quem dará o único e verdadeiro sentido da palavra de Deus.
Depois dessa breve introdução fica fácil responder suas dúvidas:
>> 1) Por que para os cristãos, a Tradição merece credibilidade?
Os cristãos verdadeiros, ou seja, os católicos, dão credibilidade à Tradição pois ela é o testemunho dos homens que foram inspirados por Deus para transmitir as verdades de fé.
A Bíblia é a Tradição escrita.
A Tradição é fonte e apoio das Escrituras.
>> 2) Qual a relação entre a Tradição e a Bíblia?
Conforme demonstrado acima, ambas têm a origem divina, e se completam.
A Tradição formou e confirma a Bíblia.
A Bíblia é a Tradição documentada.
>> 3) Qual a diferença entre a Tradição e os costumes locais?
Quando falamos em Tradição entenda-se o conjunto de verdades reveladas por Deus.
Como a revelação terminou com o último Apóstolo, também a Tradição que é conservada até hoje remonta a esta época.
Os costumes são um reflexo da Tradição na sociedade civil, mantidos naturalmente pelo povo de determinado lugar.
Os usos e costumes são os geradores da lei escrita, e nesse sentido poderíamos fazer um paralelo com a Tradição.
Porém a Tradição tem origem divina, e não humana.
Os usos e costumes são humanos, e não podem ser considerados infalíveis, mesmo que todos os povos tenham agido ou pensado da mesma forma em determinadas épocas, o chamado consenso geral dos povos.
Esta é uma doutrina falsa, que infelizmente se encontra muito difundida hoje, mesmo entre os católicos.
Esperando tê-lo respondido, despedimo-nos
In corde Iesu et Mariae
Marcos Liborio.
Fonte:www.montfort.org.br
