CREIO NO PAPA
Dizem que um dia o Papa João XXIII, saindo de carro aberto na Praça de São Pedro para cumprimentar os fiéis, uma mulher do meio da multidão teria exclamado com um forte grito:
"mio Dio, que Papa grasso!"
Isto é, "meu Deus, que Papa gordo!"
O Papa, cheio como sempre do humor campesino que não perde a oportunidade para dar uma resposta de humorismo mas direta, teria respondido:
"minha senhora, o conclave não é concurso de beleza".
Uma resposta certa e que nos leva a refletir na eleição do Papa Bento XVI.
Na verdade dele não se pode dizer que seja gordo, até parece magro demais.
Mas poderíamos dizer que este é um momento de turbulência onde cada um se acha no direito de manifestar o seu pensamento.
Isto é bonito porque é democracia pura, ninguém deve guardar dentro de si o que pensa mas também não deve querer impor o que pensa como essência da verdade.
Porém nossas opiniões são válidas enquanto se espelham na verdade e mostram como a verdade é única e deve ser não defendida mas proclamada.
Porque a verdade não necessita de defesa, ela se defende por si mesma e ilumina com sua luz as trevas do nosso ódio.
Mas os nossos olhos quase cegos com tantas trevas, não estando mais acostumados a ver a luz, sentem-se feridos e preferem portanto a penumbra ou a chegada das trevas verdadeiras.
Na noite tudo é igual, não há diferença nem de cores nem de alturas e nem de força, nada.
A noite nivela tudo e nos faz perder a identidade das coisas.
É importante portanto relembrar as palavras de Jesus:
"Quem é da luz compreende a luz e aceita a luz, quem não crê vive as trevas, não pode aceitar a luz".
O evangelista João, no seu prólogo, nos anuncia palavras que são chamadas a "tristeza de Deus":
"Ela estava no mundo, e por ela o mundo foi feito, mas o mundo não a conheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não a receberam. O que vem depois de mim passou adiante de mim, porque existia antes de mim". Pois da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça." (Jo 1,10-11.15-16).
Depois desta pequena introdução que achei necessária creio que podemos dizer que o conclave não é concurso de idéias, de pensamento onde ganha o pensamento que é mais aceito por todos e que mais lisonjeia o nosso eu e satisfaz os nossos instintos.
O conclave, e nós o cremos é o encontro de pessoas sábias, experientes nas coisas de Deus e da Igreja que, depois de um solene juramento sobre a palavra de Deus, decidem dar o seu voto à pessoa que, diante de Deus, acham que saberá guiar a Igreja melhor do que todos os demais.
Um compromisso que não é brincadeira de criança, mas que leva a pessoa a se perguntar seriamente diante de Deus e diante da sociedade e de mais de um bilhão de fiéis: o que o Senhor quer de nós?
No conclave não há dialética e confronto de opiniões mais ou menos fascinantes ou "modernas" que possam ser a isca para atrair mais fiéis que estão à margem ou que abandonaram a Igreja por ser, como eles dizem, "serva demais" e que busca o catolicismo que amacie as arestas e que ande pela maioria.
Nós cremos que a verdade é única, que ninguém tem direito de mudar a verdade para agradar as pessoas.
Aliás o mesmo Jesus, quando anuncia a Eucaristia e vê-se criticado, não compreendido, olha tristemente muitos discípulos abandonando-o, diante da manifestação do pensamento dos apóstolos, estes dizem "este discurso é duro".
Jesus não volta atrás e nem tenta "dietizar" o seu discurso mas com mais exigência ainda diz:
"Também vós quereis ir embora?"
Simão Pedro respondeu:
"Senhor, para quem iríamos? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus". (Jo 6,67-69)
O Papa justamente não tem outra missão a não ser anunciar a palavra de Jesus em defesa dos valores da vida, por isso que há desvalores que a multidão, manipulada pelos meios de comunicação ou pelo pensamento da onda, pode considerar válidos, mas que a Igreja, à luz do evangelho, sabe que não podem ser válidos.
Como pode ser admitido ou, como o povo diz, "liberado", o aborto, a morte, a manipulação do ser humano, a vida sexual feita de promiscuidade ou de frustração permanente e contrária à nova vida?
Quem tem ouvidos para entender entenda, dizia Jesus.
Não é necessário explicar o que está mais explicado do que a finalidade da água é molhar e não secar.
Cremos em Jesus de Nazaré, no seu evangelho e no Papa enviado para reafirmar a validade do evangelho.
A Igreja não pode ter medo de ficar pequena e nem que os demais a abandonem e vão para seitas ou fundem igrejas que sejam mais em sintonia com o pensamento do homem relativo e fragmentado do III milênio.
A fidelidade não é feita para muitas pessoas, provavelmente é privilégio de poucos, certamente não é meu na totalidade.
É necessário, embora infiéis, fracos, frágeis, reconhecer quer fidelidade é um valor que não pode ser colocado em discussão por nenhum motivo do mundo.
Creio e aceito o Papa Bento XVI como dom de Deus à sua Igreja e à humanidade. Tenho certeza que o conclave não é concurso de nada, não é projeção de nada, é somente o lugar onde se crê, se procura não agradar aos homens mas agradar a Deus.
Nem se trata de dar um voto de confiança ao Papa, trata-se de ama-lo, aceita-lo e pronunciar, mesmo sofrida, a nossa profissão de fé.
Não é por acaso a fé substância do que não se vê?
Creio no Papa, na sua Igreja e que ele nos levará a Cristo Jesus!
A fé, como diz João da Cruz, é caminho na noite escura, mas que nos leva à experiência da madrugada do sol e da vida.
O Papa Bento XVI, o 265o. Papa, continua a ser o que foi Pedro e todos os outros homens frágeis, mas colocados a dirigir o barco de Pedro, e vigários de Jesus Cristo.
Isto me basta!
Frei Patrício Sciadini, OCD
Fonte:www.asj.org.br
