GOSTAM DAS PRIMEIRAS CADEIRAS


Jesus não faz concessões fáceis e comprometedoras aos seus discípulos. Na vivência do discipulado não se pode negociar nada que venha a comprometer a sua autenticidade.

De modo contundente, Jesus bombardeia as demagogias e o apreço que, facilmente, se dá ao que tem menos importância, em detrimento do compromisso e promoção da vida.

O Mestre sabe muito bem o quanto atrai o coração humano o que causa impressão, pela força da imagem, e o desejo de ser muito e bem reconhecido nas considerações sociais e políticas.

Este desejo é forte e toma conta dos corações.

É um risco.

Atrapalha tudo e até pode obscurecer o que é humano na vida e na mente.

Tomai cuidado.

Jesus não hesita em recomendar o cuidado com este veneno que seduz o coração dos discípulos.

A advertência para que se tome cuidado focaliza de um lado as inconsistências dos núcleos mais profundos da pessoa que, ilusoriamente, admite hospedar motivações que têm pouca importância.

Por outro lado, é importante tomar cuidado com as dissimulações que estão presentes na sedução das roupas, nos primeiros lugares e nos cumprimentos.

Estes podem conduzir as opções dos discípulos.

Os riscos maiores vêm da incapacidade de ver os outros e da ilusão de saciar-se do que está do lado de fora, simplesmente nas aparências.

O cuidado que se deve ter para não escorregar neste buraco supõe do discípulo o permanente desenvolvimento de sua capacidade de avaliação e uma indispensável compreensão da realidade que o cerca.

Do contrário, existem riscos de alienação e cegueira que fazem o discípulo valorizar como mais o que é menos.

Os melhores lugares nos banquetes Jesus sabe e conhece bem as realidades sociais, a inconsistência interior, a falta de convicções enraizadas e de princípios iluminadores, levando o discípulo a viver de formalidades e de fantasias alimentadas por certos rituais e práticas.

É assim que se alimenta o gosto e a procura pelos melhores lugares nos banquetes.

A não ocupação destes primeiros lugares nos banquetes revela a baixa-estima de muitos.

A baixa-estima e o sentimento de incompetência suscitam o desejo dos melhores lugares como compensação.

Uma compensação que compromete o sentido da simplicidade e a coragem alegre de viver para servir e não para ser servido.

Os critérios abrigados no coração, fecundados por estes desejos dos melhores lugares, se tornam cegamente perversos e atingem, de modo perverso, e os mais frágeis e os inocentes.

Devoram as casas dos vivos.

Esta acusação feita por Jesus Mestre, aos Mestres da Lei, dizendo que estes devoram as casas das viúvas, não se trata de uma acusação pontual.

As viúvas, como grupo humano, representam, para além do seu território de condição social, aqueles todos que são os deserdados da terra.

São multidões vítimas da vaidade e do orgulho mesquinho de tantos.

O absurdo de devorar os pobres existe.

É possível.

É possível porque não são poucos os que dão importância maior ao que é menos importante.

Os mais pobres se tornam vítimas porque tomados como instrumento de sustentação deste absurdo de tirar de quem não tem.

Este absurdo, Jesus adverte, será passível da pior condenação.

Só há uma saída que tem força de mudar, radicalmente, este cenário e livrará os perversos da pior condenação.

Jesus ensina este segredo aos seus discípulos.

Por isso, para além de uma simples curiosidade, Jesus põe-se a olhar o movimento em torno do cofre das esmolas na entrada do tempo.

Neste burburinho surge, aponta o Mestre, o único modelo para que o discípulo possa sustentar a sintonia do seu coração com o coração misericordioso e justo de Deus libertador.

Esta pobre viúva.

Jesus observou, para consideração dos discípulos, que eram muitos os que depositavam ofertas no cofre de esmolas.

Os ricos colocavam quantias significativas.

A análise do Mestre diz que isto não bastava.

Não basta porque a oferta está circunscrita ao supérfluo.

A oferta do supérfluo não muda os corações.

Conseqüentemente, não muda nada mais fortemente.

Oferecer do supérfluo, é prova de não conseguir deslocar-se para o território dos pobres e necessitados.

É o absurdo de permanecer no seu bem-estar, sem solidariedades comprometedoras e com força de transformação nas urgências de cada tempo.

Ele toma, então, a figura da pobre viúva.

Sua oferta é materialmente insignificante.

A grandeza de sua oferta nasce da disponibilidade total e desapegada das suas duas moedas.

Moedas tiradas, para a oferta, da sua subsistência.

O Mestre, sem titubear dá o modelo único do modo de ser discípulo, com força para mudar e presidir os corações com a verdade, a convicção do serviço a todos.

O bem de todos como fidelidade a Deus, a exemplo da viúva.

Jesus registra no coração do discípulo: Não basta oferecer.

Só vale quando se tem coragem de oferecer tudo.

Eis o desafio do discipulado.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte