ESPIRITUALIDADE MADURA
A nossa alma contém em si mesma, forças latentes que devem ser atualizadas progressiva e sucessivamente ao longo de nossa evolução interior.
Por esse motivo nosso comportamento religioso passa, freqüentemente, por mudanças e alterações.
O Evangelho e até mesmo o Antigo Testamento registram formas múltiplas de vida e de atitudes que, ao descreverem as variadas experiências, interferem, positivamente, na qualidade da fé.
Mais recentemente, a experiência vivida pelos monges fez eles perceberem que o caminho para Deus passa pelo encontro com a própria realidade, com o encontro que o fiel faz consigo mesmo, na profundeza do seu ser.
Essa tradição, nascida de uma experiência profunda, admitia que, para rezar sem distrações e unir-se a Deus pela contemplação era necessário, antes de tudo, que a pessoa estivesse familiarizada com suas próprias paixões e fraquezas.
Na prática, verificamos que determinada "postura religiosa" pode, com o tempo, criar uma espécie de hábito que, ao cansar, leva o fiel a não cumprir suas finalidades, mantendo a pessoa presa a ela mesma.
E, por não gerar frutos positivos, leva-nos a questionar se devemos mantê-la ou não no relacionamento com o Senhor.
Mas, essas mudanças nem sempre acontecem simplesmente porque tomamos uma decisão.
Há casos em que a pessoa se encontra em trevas e dificuldades tão profundas que essas mudanças serão, malgrado a indiferença e a resistência humanas, conduzidas com especial carinho pelo Criador.
Queremos nos deter em uma dessas dificuldades, que chega mesmo a ter uma certa urgência, porque vai preparar a alma para que, livre de seu orgulho e sapiência, se disponha a ouvir a voz do Senhor com mais docilidade, com mais freqüência e atenção.
HumildadeNossas inclinações humanas, nosso afeto e nossos apegos desordenados, ao nos atingirem com força, nos desviam do caminho e nos transformam em pessoas egoístas, endurecendo-nos em nosso orgulho.
Quanto mais intenso for o apego às nossas inclinações egoístas, mais nos afastamos de Deus, e nosso coração torna-se, por isso mesmo, orgulhoso.
Esse orgulho nos faz crer que sabemos tudo, de que somos sapientes e não precisamos das graças divinas.
Deus não desiste, felizmente, e, porque nos ama intensamente, vai providenciar e permitir que sua criatura venha a conhecer a profundidade de seu orgulho e o tamanho de seu desprezo que obstruem Suas graças.
Há casos em que a pessoa possui um sentimento de orgulho tão forte e tão profundo - acumulado durante a maior parte de sua vida - que se faz necessária mesmo, uma graça especial da parte de Deus, para ajustá-la à nova realidade de fé.
É Deus, em última análise, quem conduz esse processo, permitindo que a pessoa sinta Sua presença.
A pessoa, nesse privilegiado momento, sente-se descoberta em toda a sua "nudez", convencendo-se de que não é nada, apenas uma criatura insignificante que, em tudo, depende da bondade do Criador.
Para a pessoa essa é uma situação inusitada, profunda e real.
Sua alma permanece imóvel, atônita.
E, por não possuir qualquer experiência anterior, a pessoa é acometida de um profundo "temor" (respeito).
Não há o que fazer e, imóvel, a alma reconhece que Deus é infinitamente maior do que ela.
Pessoas que passaram por essa experiência - e há vários relatos disso na experiência dos santos - têm-na como algo natural e necessária, muito embora haja variações na maneira como são conduzidos esses relatos.
Esse instante de graça parece ser, como de fato é, uma espécie de aceno divino, convidando a alma para a virtude da "humildade", sentimento que cria nela a certeza de que, embora pequenina, ela é amada por Deus e, porque Ele a sustenta com Seu amor, deseja vê-la mais perto de Si.
Experimentar essas situações e esses convites, aos quais devemos estar atentos (até mesmo pedindo orações aos amigos), faz parte de um processo que, ao "desarmar-nos", vai criar em nós o desejo da "humildade", capacitando-nos a sermos mais generosos com o próximo, tolerantes conosco mesmos e agradecidos a Deus pela sua paciência/amor para conosco.
Diminuir para crescerAlguns estudiosos dão a isso o nome de "despojamento".
Outros preferem a expressão "humildade", assim como os que se utilizam a expressão "aniquilamento", nos casos em que o fiel possua um sentimento de orgulho tão intenso e tão forte que se faz necessário uma graça especial de Deus para ajustá-lo à realidade da fé.
Ninguém consegue progredir espiritualmente e nem sair do "marasmo" e das trapalhadas em que se encontra se não possuir a virtude da humildade.
Nesse particular, uma pessoa de profunda piedade e intensa humanidade destacou-se em sua época, deixando para nós o resultado de suas experiências.
Francisco de Assis é o seu nome.
Francisco entendeu o valor da humildade e sua importância para o crescimento espiritual de tal forma, que chegava a pedi-la em suas orações.
Tamanho era esse seu desejo que - afirmam - teria dito: "Vós sois a humildade", para referir-se ao Senhor que, naquele momento, o teria levado a um profundo êxtase.
Ah! Se fosse fácil assim!
Mas não é.
E fica difícil, principalmente se considerarmos o meio social em que vivemos, que privilegia o roubo, a mentira, a falsidade, a luxúria, dando ênfase para o sucesso pessoal a qualquer preço.
Como aceitar e desejar a virtude da humildade se ela é vista e pensada pela maioria das pessoas como "a atitude do fracasso?"Ser humilde (disponível para acolher as graças divinas) na opinião da maioria é considerado uma postura de servilismo, que "apaga o eu", não permitindo que a pessoa "apareça" e se destaque das demais.
Nesse campo de intensa competição, o próximo é considerado como "adversário" e, em casos mais extremos, como "inimigo".
A virtude da humildade pode nos ajudar na obtenção das graças que necessitamos.
Ela "desincha" o coração e corta nossa falsa santidade, cujas asas, têm arranhado e machucado quem se encontra perto de nós.
E porque não estamos suficientemente preparados pela "graça" e porque não possuímos "reservas" emocionais e espirituais, não sabemos para onde ir.
Nossa "sapiência", nossa situação financeira e nossas experiências mundanas não conseguem, nesses momentos, nos auxiliar.
Temos muita experiência no espírito - e como temos! - mas, muito pouca ou quase nenhuma experiência com as coisas da alma.
Nosso espírito quase sempre se encontra afinado com as realidades mundanas. Nossa alma, todavia, está pobre em realizações espirituais.
Mas, e nós que nos julgamos "iniciados" e no caminho da fé?
Muitos dos "iniciados" não percebem que seus espíritos estão repletos de experiências mundanas, de frases feitas e de impacto, e também não percebem que estão carentes de verdadeiras realizações espirituais.
Nesses, falta, também, o espírito de humildade.
Para que a graça possa nos atingir e nos completar é necessário a virtude da humildade.
Postura que, como vimos, modifica a qualidade de nossa fé.
Leia os artigos de Mário Eugênio Nogueira
